Comunidade Guarani Kaiowá ameaçam morte coletiva

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Enquanto os índios da etnia Guarani Kaiowá anunciam a intenção de morrer juntos, sem arredar o pé do território sagrado para eles, nas redes sociais pessoas se auto-batizam “Guarani Kaiowá” em solidariedade à resistência dos indígenas e manifestações já foram realizadas em Brasília e São Paulo, outras tantas são marcadas, a grande imprensa não tem olhos e ouvidos, muito menos voz para falar do genocídio que se aproxima.
Desde junho os 170 Guaranis, acampados na margem do rio Iowi o que chamam de tekhoa, território sagrado, tentam sensibilizar a sociedade e os poderes constituídos para que vejam sua situação e ponham fim à disputa fundiária. A Justiça Federal em Naviraí no Mato Grosso do Sul resolveu o problema, no último dia 29, ao dar ganho de causa à Fazenda Samburá, que reivindica a posse das terras, determinando que os indígenas desocupem o local.
Nenhuma nota sobre o fato na imprensa. Encontramos matérias isoladas, falando de protestos, como o que houve em Brasília na última sexta (19), em que representantes dos Kaiowá fincaram cinco mil cruzes na Esplanada dos Ministérios. Protesto pela posse de terras em conflito fundiário. Mas as terras são de quem? Porque estão sendo pleiteadas? Qual o histórico da questão? Que providências foram tomadas? Nenhuma linha sobre o cerne da questão.
Silêncio
Enquanto a grande mídia faz seu silêncio, a blogosfera espalha notícias vindas do acampamento dos Kaiowá. Uma reportagem da CartaCapital, feita a partir do comentário do jornalista Bob Fernandes sobre o fato registra que “o silêncio da grande imprensa é ensurdecedor. Sempre quando conflitos oriundos de questões estruturais como a questão fundiária no Brasil precisam estar à tona, a mídia se cala finge que nada acontece. A não ser quando tem caminhada às cidades dos movimentos de luta pela terra, onde o trânsito fica congestionado ou alguma ocupação de prédio público. Tudo com o viés de criminalizar trabalhadores e indígenas”, diz o texto.
Ainda segundo a matéria, outro mal que esse silêncio por parte da grande imprensa traz consigo é “a confusão sobre os fatos” e registra que nas redes sociais muita gente diz que “a culpa é da Dilma”. Retomando a história, já registramos em matéria anterior que em dezembro de 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto homologando a demarcação da terra. A eficácia do decreto foi suspensa em janeiro de 2010, pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, em favor das fazendas Polegar, São Judas Tadeu, Porto Domingos e Potreiro-Corá.
Em 29 de setembro, a Justiça Federal de Naviraí em Mato Grosso do Sul decidiu pela expulsão definitiva da comunidade Guarani-Kaiowá, desta vez em favor da fazenda Samburá e então chegamos ao dia de hoje, sexta (25), em que muito se fala e quase nada de concreto se sabe sobre a situação dos indígenas em Naviraí. O fato que se deve exigir do Governo Federal é uma intervenção.
Intervenção Federal 
O governo federal não tem responsabilidade direta na morte ou suicídio coletivo, porém tem o dever de intervir para que ele não aconteça. Nesta quarta (24) a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados se pronunciou sobre o caso, através da vice-presidente da comissão, deputada Erika Kokay (PT-DF), que afirmou que o anúncio de morte coletiva da comunidade é algo que precisa ser ouvido pelo poder público. “Precisamos mudar a perspectiva de ‘mudez’. Tudo isso que está acontecendo, o grito que está sendo arrancado desta comunidade deve ser escutado. O autoextermínio anunciado é um último grito da comunidade, que quer apenas preservar sua condição de indígena”, disse.
Parlamentares integrantes da Comissão prometem visitar a aldeia “Passo Piraju” e articular uma solução para o conflito. “O Estado não pode simplesmente deixar que aconteça a reintegração e ignorar a dor da população Guarani-Kaiowá. Seria um atestado claro de que nós, brasileiros, estamos rasgando a nossa constituição”, diz Kokay. Ainda segundo ela, há a intenção de “formar um grupo de trabalho que possa resolver de forma definitiva a problemática da questão fundiária e que impeça, neste caso, a reintegração de posse das terras dos Kaiowá”.
História
Durante a ditadura militar (1964-1985), um movimento de colonização de terras se intensificou no Mato Grosso do Sul. Grande parte de territórios indígenas foi ocupada por fazendeiros. Após a redemocratização do país, a Constituição de 1988 estabeleceu que estas terras deveriam ser identificadas e demarcadas.
O processo de demarcação de terras enfrenta, até hoje, resistência por parte de grandes proprietários de terras da região. Erika explica que o processo de colonização expulsou os indígenas de suas terras e resultou em um verdadeiro etnocídio, o genocídio da cultural da população indígena. Os efeitos deste processo, segundo ela, podem ser observados até hoje. “Estes indígenas passaram a conviver com prostituição, uso de drogas e suicídios”, informa.
Conflito fundiário – A batalha pela retomada de terras indígenas se arrasta no Mato Grosso do Sul e o estado é responsável pelos mais altos índices de assassinatos de indígenas, que lutam pela devolução de terras tradicionais e sagradas. Já foram registrados muitos ataques, ordenados por fazendeiros insatisfeitos com a devolução das terras aos seus verdadeiros donos.
O processo continua em andamento, mas tem caminhado a passos muito lentos, já que ainda não foi votado por todos os ministros. Assim, fartos da morosidade da justiça brasileira, os Guarani Kaiowá decidiram fazer a retomada da terra. Na última sexta (19) um grupo esteve em Brasília e fincou cinco mil cruzes na Esplanada dos Ministérios, em protesto e pedindo que a Justiça resolva a pendenga.
Suicídio 
O caso dos Guarani Kaiowá veio à tona nas redes e na grande mídia por conta da carta em que falam de morte coletiva. Por conta da notícia de que os indígenas ameaçaram “se suicidar”, nesta sexta (25), Fernando Gabeira (PV) relatou em seu blog estar de volta de Dourados, onde visitou os Guarani Kaiowá. Segundo Gabeira, eles vão “apenas resistir”, não cometer suicídio coletivo como estava sendo dito nas redes sociais. “O chefe da aldeia, Apycarewu, afirmou que o grupo pretende se defender até à morte, mas não pretende se suicidar”, diz Gabeira em seu blog, prometendo uma reportagem para este sábado (27).
Na quinta (24) foi o Conselho Indigenista Missionários (Cimi) quem disse através de nota que a carta não menciona suicídio coletivo. Na nota o Cimi informa que os “Kaiowá e Guarani falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-las. Vivos não sairão do chão dos antepassados. Não se trata de suicídio coletivo!”
Ainda segundo a nota do Cimi, “o suicídio entre os Kaiowá e Guarani já ocorrem há tempos e acomete sobretudo os jovens. Entre 2003 e 2010 foram 555 suicídios entre os Kaiowá e Guarani motivados por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas. Nenhum dos referidos suicídios ocorreu em massa, de maneira coletiva, organizada e anunciada”.
Fica um questionamento: os kamikazes japoneses da segunda guerra mundial eram suicidas, ou apenas decidiam “morrer coletivamente”?
Por Daniela Novais
Fonte Câmara em Pauta
26 de outurbro de 2012
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